Editorial
Não se esperava, os portugueses – dizem as sondagens – não queriam, mas o certo é que vamos a eleições. A 18 de maio, já marcou o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, voltamos às urnas. Gabriel García Márquez escreveu “Crónica de uma morte anunciada”. E o que caía mesmo bem era eu escrever aqui que, em Portugal, os últimos acontecimentos do panorama político se trataram de uma queda de um governo anunciada. Mas a realidade é que eu não acho que o fosse. Ainda assim, aqui chegámos. Anunciado ou não, teremos um novo Governo daqui a dois meses.
Quando se começou a “levantar a lebre” sobre as suspeições que envolviam Luís Montenegro e a sua – que afinal já não era sua, mas da mulher e depois dos filhos – empresa, a Spinumviva, eu estava longe de imaginar que íamos de novo a eleições. E também não me pareceu, honestamente, que mesmo o principal partido da oposição o quisesse. Querendo-o, teria votado a favor das duas moções de censura, apresentadas pelo Chega e pelo PCP, e estava feito.
O certo é que, por culpa de uns ou de outros, a Assembleia da República foi dissolvida. Montenegro cismou numa moção de confiança que já sabia de antemão que iria ser chumbada. O PS manteve-se firme e não cedeu às tentativas de última hora – que uns dizem terem sido apenas manobras de diversão –, da parte do Governo e da bancada parlamentar do PSD, para que se chegasse a um entendimento. Há também quem defenda que era precisamente isto que os socialistas pretendiam desde o início: eleições.
Não me cabe a mim dizer aqui de quem julgo – na minha humilde opinião – ter sido a culpa do desfecho. Mas a culpa do início de tudo, essa, é inequívoca: Luís Montenegro não foi cauteloso na forma como assumiu funções como primeiro-ministro, tendo nas suas mãos – ou nas da sua família mais próxima – uma empresa. Ainda por cima uma empresa cujo objeto de negócio ainda agora não é claro.
Uma coisa é certa: o país não precisava de eleições legislativas, um ano depois da tomada de posse do Governo. O país precisa urgentemente, isso sim, de avançar. E precisa, muito, de criar soluções para a habitação e para a saúde, por exemplo. Ir a eleições é ficar em suspenso, meses a fio. E se o fio partir, quem se importa?
Salomé Filipe
Diretora do Jornal
