OPINIÃO

Manifesto pela paz

Opinião

Hoje é o tempo de pedirmos a paz, de defendermos a paz e de lutarmos pela paz. Bem sabemos que o contrário de paz não é necessariamente guerra mas hoje é também o tempo de rejeitar cenários de guerra, pela brutalidade que gera, pela destruição que causa e também porque não é a boa forma de resolver conflitos.
Não podemos cruzar os braços, porque a guerra é a barbárie, é transformar as pessoas – a sua dignidade intrínseca e os seus sonhos – em carne para canhão (o “menino da sua mãe” é mesmo um filho como os nossos, por muito que a banalização mediática o queira desmentir). Temos de reafirmar que a paz, a paz verdadeira, merece todo o esforço diplomático e a mobilização contra a corrente sanguinária que equivale os fortes à força e a subjugação ao fim último.
Portugal saiu traumatizado da I Guerra Mundial, passou a II Grande Guerra na pobreza e numa neutralidade interesseira e depois teve uma guerra colonial (na verdade 3 guerras distintas) que levou ao movimento da Democracia. Há 50 anos que não sabemos o que é isso de guerra. No nosso território já não vemos forças militares inimigas desde as invasões francesas, já lá vão mais de 200 anos. Podemos estar algo distantes dos focos de guerra e algo desmemoriados dos seus efeitos mas também no nosso país devemos estar conscientes que partilhamos valores e que há perigos que os ameaçam.
Apesar de todas as dificuldades, e é claro que o quotidiano é muito duro e injusto para um número significativo de pessoas e não nos devemos acomodar a esta situação, o mundo em que vivemos, com liberdade, democracia, livre circulação e igualdade de oportunidades pela lei, deve ser preservado.
É com este espírito de assumir a paz como um valor supremo que enfrentamos o realismo de ter de criar as condições para nos defendermos. Não podemos estar à mercê de quem nos quer agredir (e a invasão da Ucrânia serviu de mau exemplo) e, aprendemos agora, temos de saber os parceiros com que podemos contar (e as inacreditáveis cabriolas de Trump são aqui a nossa vacina). A Europa, quer dizer Portugal e a grande maioria dos parceiros da UE, está a tomar decisões que consideraríamos extremas há duas décadas mas que hoje parecem justificadas e necessárias para que nos respeitem. O investimento na área da defesa e o esforço para garantir soberania (europeia) estratégia parecem ser uma inevitabilidade, lógica e sensata, de quem quer continuar a poder decidir dos próprios destinos.
Reconheço desde já razão a quem apontar contradições entre o primeiro e este último parágrafo mas pelo menos não me acusem de cinismo nem de alheamento. Estou aberto a discussão e a outras ideias mas a objetividade e o equilíbrio levam a pensar que a paz deve ser prosseguida a qualquer custo, de forma duradoura e sem que tal implique perda dos outros valores de dignidade, liberdade, justiça e desenvolvimento. Não queremos fazer a guerra para ter a paz mas a paz exige que nos preparemos para a defender.
Outra questão associada a esta é a do dilema clássico “manteiga versus armas”, ou até que ponto as despesas na área da defesa podem colocar em causa o investimento em políticas sociais (educação, saúde, pensões, etc) e infraestruturas públicas. Para um país como Portugal isso seria inaceitável, tendo em conta a nossa estrutura social e o desenvolvimento que ainda desejamos legitimamente alcançar. Recorde-se apenas que o mais simbólico dos sistemas de proteção social, o inglês, nasceu em dezembro de 1943, em plena guerra e com a consciência responsável de fortalecer o contrato social, combatendo o efeito daqueles que Beveridge considerava os cinco males da sociedade: escassez, a doença, a ignorância, a miséria e a ociosidade.
Um reforço do orçamento para a defesa não pode, de forma alguma, colocar em causa a prioridade que temos que dar à saúde e à educação, a par com o crescimento. A paz vale a pena. A paz vale sempre a pena. E vale sobretudo quando é a base fértil para termos uma comunidade mais coesa e solidária, saudável e culta, com abertura para que cada um faça render os seus talentos.

Oscar Gaspar
Presidente da Mesa da AG da SCM Vagos

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