Desporto
Em setembro de 2023 realizámos nesta coluna uma análise à competitividade do Futebol português, servindo-nos de vários indicadores, entre os quais os orçamentos dos clubes /SADs participantes na Liga Profissional portuguesa.
Concluímos, então, que 13 dos 18 clubes participantes (cerca de 70%) tinham orçamentos entre os 5 e os 8 milhões de Euros; os 3 “grandes” orçamentos a rondar os 100 milhões de euros (20 vezes superiores aos “outros” e, no meio, o Braga e o Guimarães com orçamentos intermédios de 20-40 milhões de Euros.
Concluiu-se, portanto, pela grande desigualdade competitiva do Futebol português e dissemos, então, que seria importante diminuir o “fosso” entre os 3 “grandes” e os restantes clubes e que isso só seria possível pela redistribuição das receitas televisivas. Só assim se garantiria um aumento dos orçamentos dos clubes, da qualidade dos atletas e do equilíbrio competitivo da Liga Portuguesa.
As receitas televisivas
Atualmente os 3 “grandes” negoceiam diretamente com as televisões (recebendo cada um, valores entre os 50 e os 60 milhões anuais) e tendo contratos válidos até 2025/26 (Benfica) e 2027/28 (Sporting e FC Porto). Os restantes clubes têm receitas distribuídas diretamente pelas televisões que correspondem a 7 milhões de euros anuais.
Ora, a Lei estabelece qua a partir de 2028/29 (com o fim dos contratos dos 3 “grandes”) os diretos televisivos deverão ser negociados de forma centralizada pela Liga de Clubes e as respetivas receitas distribuídas pelos clubes (de forma mais equitativa, subentende-se).
Mas, para que isso aconteça, a Liga de Clubes e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) terão de apresentar, até junho de 2026, uma proposta de modelo de centralização de receitas, que terá de ser submetida (e aprovada) à Autoridade da Concorrência. Caso não exista acordo entre os clubes, será o Governo a decidir, legislando nesse sentido.
É claro que os acordos vão ser difíceis de obter, porque os 3 “grandes” não querem perder o valor das receitas atuais e os clubes mais pequenos, que têm nas receitas televisivas a principal fonte de receita, querem subir (e muito) essas receitas.
A Liga de Clubes, num cálculo muito otimista, calcula que a receita global andará pelos 300 milhões de euros – que seria o valor a distribuir por todos os clubes participantes.
Vamos aguardar, portanto, os novos desenvolvimentos (porque o financiamento é uma questão estrutural e de grande importância) e a eleição da nova direção da Liga de Clubes é um fator de grande importância, neste processo.
Terminamos com o que escrevemos aqui em setembro de 2023 (há mais de ano e meio): “O Sporting, o Benfica e o FC Porto arrecadam a maior parte destas receitas televisivas: por um lado, é justo, porque têm grandes massas de adeptos; por outro é injusto, porque não jogam sozinhos e os restantes clubes não são parceiros menores. A melhoria da qualidade do Futebol português passa por um maior nivelamento dos 18 clubes da primeira Liga”.
Vamos aguardar para ver… mas, quem quiser, sempre pode consultar a Tese de Mestrado “Os direitos televisivos do Futebol Português: análise do modelo atual e de um modelo alternativo” (Nuno Brissos de Almeida, FMH, Universidade de Lisboa)
Paulo Branco