OPINIÃO

O Desrespeito na Assembleia da República: Uma Necessidade de Mudança

Opinião

Nos últimos anos, temos assistido a um espetáculo lamentável na Assembleia da República, onde os insultos e a falta de respeito se tornaram recorrentes e quase uma norma entre os alguns representantes eleitos pelo povo. Se considerarmos, ainda, o que circula na opinião publicada, e os recentes episódios confirmam, o pior não são os insultos nos debates, mas o que se diz com os microfones fechados. Este comportamento não apenas compromete a dignidade das instituições democráticas, mas também desrespeita os cidadãos que confiaram a esses eleitos a responsabilidade de os representar. Com este tipo de comportamentos, não me parece que haja alguém que se sinta representado, pelo menos eu quero acreditar nisso.
A Assembleia da República deveria ser um espaço de debate construtivo, onde ideias são discutidas, divergências são respeitadas e soluções são encontradas para os desafios que o país enfrenta. No entanto, o que temos presenciado são cenas de gritaria e provocações. Os insultos, em vez de argumentos, parecem ter-se tornado a tónica de muitas intervenções. O que resulta disso é uma degradação da qualidade do discurso político, que, por sua vez, afeta a perceção da política junto da população.
Os insultos não só deslegitimam o trabalho dos deputados, como também criam um ambiente tóxico que afasta os cidadãos do processo democrático. Quando os nossos representantes se atacam mutuamente em vez de se concentrarem nas questões que realmente importam, como por exemplo a saúde, a educação, a justiça social, … é natural que muitos se sintam desiludidos e desligados da política. O desprezo pelo debate sério e fundamentado mina a confiança da população nas instituições e nos próprios políticos.
Além disso, as repercussões desse comportamento vão além das paredes da Assembleia da República. A normalização de insultos e desrespeito incita uma cultura de agressividade que acaba por refletir-se na sociedade. Se os representantes do povo não conseguem manter um padrão de civilidade, que exemplo estamos a dar às futuras gerações? Precisamos de um ambiente político que promova o respeito e a empatia, onde as diferenças ideológicas possam ser discutidas de maneira civilizada e produtiva.
É imperativo que os partidos políticos e os seus líderes tomem uma posição clara contra esta cultura de insultos. Medidas devem ser implementadas para garantir que os debates se centrem no conteúdo e não na forma. A responsabilidade de criar um ambiente mais saudável e respeitoso recai sobre todos os que ocupam cargos públicos, e é urgente que se reconheça que o respeito é fundamental para o funcionamento de uma democracia saudável.
Os insultos proferidos por uma deputada do CHEGA (Diva Ribeiro) à uma deputada do Partido Socialista (Ana Sofia Antunes) invisual levantam questões sérias sobre respeito, dignidade e a forma como as figuras públicas se comunicam. A linguagem utilizada em qualquer contesto, mas especialmente em contextos políticos deve ser sempre pautada pela civilidade e consideração, independentemente das diferenças ideológicas. Atacar quem quer que seja, mas um representante eleito por maioria de razão, com base em características pessoais, como a deficiência, não só é inaceitável, mas também perpetua estigmas e preconceitos. É fundamental que haja uma reflexão sobre a importância da inclusão e do respeito no discurso público, promovendo um ambiente mais saudável e construtivo na política.
O afastamento dos cidadãos da política é um fenómeno que se tem intensificado nas últimas décadas, refletindo uma desilusão com as instituições tradicionais e a perceção de que a política não atende às necessidades da população, como parece comprovar as altas taxas de abstenção em atos eleitorais. Esse distanciamento pode ser atribuído a uma série de múltiplos fatores, uns reais e outros percecionados, como a corrupção, a falta de representatividade e a complexidade dos processos políticos, que muitas vezes parecem distantes da realidade quotidiana dos eleitores.
Esse desfasamento contribui para a ascensão de populismos e extremismos. Líderes populistas tendem a apresentar-se e a serem percecionados por muitos eleitores como alternativas “autênticas” aos políticos tradicionais, prometendo uma rutura com o status quo e apelando para os sentimentos e frustrações da população. Frequentemente utilizam uma retórica que simplifica questões complexas e oferece soluções fáceis, criando um vínculo emocional com os cidadãos que se sentem negligenciados e desamparados.
Além disso, o extremismo pode surgir como uma resposta ao sentimento de impotência e à falta de diálogo nas esferas políticas. Grupos extremistas exploram o medo e a insatisfação, galvanizando apoio em torno de ideais radicais que prometem uma mudança imediata, mesmo que essa mudança seja baseada em propostas polarizadoras e divisórias.
Nesse contexto, a política torna-se um campo de batalha onde as vozes mais extremas ganham espaço, enquanto as abordagens moderadas e colaborativas são frequentemente ignoradas e até ridicularizadas. A consequência é um ciclo vicioso: o afastamento dos cidadãos da política alimenta a ascensão de discursos populistas e extremistas, que, por sua vez, afastam ainda mais os cidadãos das instituições democráticas, criando um cenário de instabilidade e polarização.
Para quebrar esse ciclo, é fundamental promover uma maior inclusão e participação cidadã, fortalecendo as instituições democráticas e buscando formas de incluir a população no processo político, tornando-o mais próximo e representativo das diversidades e necessidades da sociedade.
O que se passou na Assembleia da República é inadmissível. Infelizmente, a degradação verbal nas sessões plenárias atingiu um nível nunca visto em parlamentos verdadeiramente democráticos em geral, e no nosso em particular.
Alguns comentadores televisivos e até mesmo jornalistas criticaram o ex-presidente da república, Augusto Santos Silva, por não tolerar os excessos de linguagem verbal e gestual de alguns membros da bancada do CHEGA. Reconhecerão agora que o anterior ex-presidente é que estava certo? Ter razão antes de tempo tem custos políticos elevados e exige coragem que falta a muitos.
Ana Sofia Antunes é uma deputada com muitas qualidades políticas e pessoais. Competente, inteligente, trabalhadora, independente, solidária, dedicada, simpática, educada… apenas para referir algumas. Parece-me fácil aceitar, que tendo em conta as suas condições físicas deveria merecer o respeito e a admiração de todos, especialmente dos seus pares.
Na Casa da Democracia não há lugar para o discurso de ódio, o insulto, a humilhação, o ataque pessoal. Aconteceu “agora”, e tem acontecido com recorrência, especialmente desde que o CHEGA chegou ao parlamento, sobretudo desde que deixou de ter um só deputado.
Os maus exemplos comportamentais de alguns deputados e deputadas são presenciados por alunos que assistem às sessões e pelos que, em casa, seguem os debates através do canal parlamento.
Está em causa a imagem do parlamento. Está em causa a educação para a cidadania. Está em causa o respeito pela atividade política. Está em causa a dignidade dos eleitos do povo. Está em causa a democracia. Todos temos e dever de não permitir que isto aconteça!

La Salete Oliveira
Presidente CPC-PS Vagos

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