OPINIÃO

Sobre uma foto: coisas antigas e de interesse!

Cantinho de João Ferreira
Esta foto, onde aparecem o meu neto Tiago e a minha cunhada Alda, casada com o Sr. Armando Madaíl, traz-me muita recordação: era no tempo em que éramos felizes e nem sabíamos. Fazem cerca de trinta anos, e o local era o galinheiro meu e da Maria Lina, minha falecida esposa. O meu neto era um jovem de quatro ou cinco anos, fazia “diabruras” que nos levavam ao desespero: trepava aos telhados, dava machadadas na figueira da casa velha, inclusive, uma vez, nem sei bem porquê, lançou meia dúzia de ovos à parede, acabados de comprar (fica o reparo).
Era o tempo das festas de Soza, onde a minha mulher cozinhava para trinta: todas as sete irmãs, a contar com ela própria, e também os maridos e filhos e filhas das mesmas, e mais até os convidados. E havia vinho, havia leitão e chanfana, acima de tudo havia papas de abóbora e bilharacos, havia até pão cozido na lareira, como se fosse castanhas. Não faltava mesmo nada, nem companhia, nem festa, nem juventude, nem trabalho na realidade. Lembro-me mesmo muito bem, de lado a lado com a garagem onde montávamos a mesa para a festa: o meu humilde escritório.
Foi de lá que surgiram quase quatro décadas de “Eco de Vagos”, que havia sido lançado sem registo em agosto do famoso ano abrilino de setenta e quatro. Os “donos” eram todos comunistas, não que isso tenha nada de mal, o que tinha de mal, era a lei do “agora já vale tudo” que se impôs a seguir à queda do Estado Novo. E muitos não queria que assim fosse, muitos queriam que a “outra senhora” voltasse, mas eu, João dos Santos Ferreira, nunca esqueci abril.
Das minhas cunhadas, principio pela Alda por aparecer na foto que ilustra o artigo: ainda hoje muito me acode e é muito minha amiga. Agora por ordem, executando esta penúltima: Aldina que com noventa e um anos, vive na carvalheira com o seu marido Júlio “Caroço”; Emília já finada, vítima de muitas maleitas e um casamento que se viu terminado por viuvez do meu cunhado Lúcio, morte precoce a meu ver (mas a vida é mesmo assim); Maria de Lurdes, que já viúva do seu marido Telmo Barreto (que sofreu da doença de Parkinson’s antes de partir), hoje sofre, como a minha mulher sofreu, de demência; Luísa, que casada com José Luís e sofrendo da mesma maleita, passa o tempo a cuidar do seu jardim lá para os lados de Bustos; e por último Virgínia, casada com Evaristo Silva, vive na Gafanha da Nazaré, onde a fui visitar faz cerca de três anos.
E eu, com os meus noventa e três, contados a dez de fevereiro desta volta ao sol, celebrei com o meu único irmão vivo, Manuel Armando Ferreira, na sua casa, perto de Ílhavo. E houve bolachinhas e Porto… mas eu bebi tinto, que é a minha preferência.
É com algum saudosismo que vos falo de toda esta minha vida, pode parecer um lugar-comum, mas a vida é para aproveitar enquanto há. Deixo o exemplo: saudando todos e todas por quem passo, hoje começo a notar o rarear na resposta, ou por não ouvirem ou por não quererem gastar saliva. E é com alento e felicidade que levo os dias, pelos menos o mais que posso. Até cedo, ávidos leitores da quarta e atual edição do “Eco de Vagos”, pertença da Santa Casa da Misericórdia, para a qual, depois de chamado, ainda não falhei um número.
Mais haveria a falar, mas por ora, sublinho o que já me parece óbvio: o hoje é que importa.

João dos Santos Ferreira

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