OPINIÃO

MENSAGEM PARA A QUARESMA

A Quaresma deste ano acontece em pleno Ano jubilar e na caminhada que a nossa diocese de Aveiro está a fazer sobre as comunidades pastorais, em ordem a construirmos uma Igreja sinodal onde a comunhão, a participação e a missão sejam assumidas por todos os batizados. Somos peregrinos de esperança, a esperança que nasce do amor de Cristo trespassado na cruz, porque «quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte de seu filho, com muito mais razão, uma vez reconciliados, havemos de ser salvos pela sua vida» (Rm 5,10). Sonhamos com comunidades cristãs que coloquem Cristo ressuscitado no centro da sua vida, vivam a comunhão como sinal visível dessa presença e formem discípulos missionários que saibam dar razões da sua fé (cf. carta pastoral Deus caminha connosco).
O texto evangélico da pecadora arrependida (Lc 7,36-50), de S. Lucas, o evangelista da misericórdia, é como que a bússola que vai orientar o nosso encontro com Cristo vivo e ressuscitado ao longo do tempo quaresmal.
O contexto da parábola põe em destaque as atitudes diferentes de Jesus e do fariseu Simão, perante a mulher que está ao seu lado: o fariseu julga-a negativamente e Jesus acolhe os seus gestos. Na relação do fariseu com a pecadora há preconceitos já adquiridos, enquanto a mulher mostra uma atitude de amor e de fé baseada no perdão.
A mulher, colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés…”. As lágrimas de arrependimento brotam espontaneamente do seu rosto e banham os pés de Jesus. O beijo nos pés é um sinal que se reservava apenas a quem tivesse salvado a vida de alguém, e com os seus cabelos enxuga os pés de Jesus. Uma mulher que soltasse os cabelos era sinal de um ato da maior desonra e humilhação. Tudo isto traduz, naquela mulher, uma enorme gratidão. Tudo se realiza em silêncio, por parte da mulher e por parte de Jesus. O seu silêncio é de perdão – o que obriga o fariseu a reagir contra Jesus, mais ainda que contra a mulher.
“Um prestamista tinha dois devedores… Qual deles o amará mais?”. Jesus narra uma parábola que tem o seu ponto culminante no perdão inesperado de uma dívida, grande ou pequena. Na imagem deste perdão percebe-se a novidade do perdão que Deus concede aos pecadores. Como refere o Papa Francisco na Bula a “A esperança não engana”, perdoar não muda o passado, mas pode-nos permitir mudar o futuro e vivê-lo de forma diferente, sem rancor, ódio e vingança, porque o “futuro iluminado pelo perdão permite ler o passado com olhos diversos, mais serenos, mesmo que ainda banhados em lágrimas” (nº 23)
Para a nossa caminhada quaresmal, vamos fazer o esforço de pôr em prática, entre outras, as seguintes propostas:

  1. A indulgência do jubileu permite-nos descobrir como é ilimitada a misericórdia de Deus, sabendo nós, por experiência, que o pecado deixa a sua marca, pois «todo o pecado, mesmo venial, traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte, no estado que se chama purgatório» (CCE 1472). Ela é concedida nas condições habituais (Confissão sacramental, Comunhão eucarística e oração pelas intenções do Sumo Pontífice) aos fiéis verdadeiramente arrependidos e movidos pelo amor a Deus e aos irmãos.
  2. A peregrinação à Catedral de Aveiro e ao Santuário de Nossa Senhora de Vagos, igrejas jubilares na nossa Diocese, é um passo fundamental na vida do povo de Deus, que caminha em direção aos novos céus e à nova terra. Por esta razão, o perdão dos pecados no sacramento da Reconciliação e o perdão das dívidas dos mais ricos para com os mais pobres são condição necessária para a construção da paz, connosco mesmos, com Deus e com os irmãos.
  3. A Caminhada quaresmal. Nesta Quaresma pretendemos valorizar o símbolo diocesano que marca o nosso triénio pastoral: a abelha, conhecida por ser laboriosa, diligente e cooperante. Ela é a imagem do discipulado missionário, em que não somos apenas chamados a seguir Jesus no seu agir, no seu estilo de vida, no seu ministério, mas a tomar a cruz e segui-lo; o favo, lugar construído pelas abelhas, é a imagem da comunidade cristã.
  4. As 24 horas para o Senhor decorrerão do dia 28 de março, sexta-feira, a dia 29, sábado, devendo ser uma ocasião para que “todos reanimem a esperança” que existe em nós. Todos somos chamados a ser sinais palpáveis de esperança para muitos irmãos e irmãs que vivem em condições de dificuldade. Como preparação para a Ressurreição Pascal, na sexta-feira à noite e durante todo o dia de sábado, propõe-se às comunidades cristãs que prevejam uma abertura extraordinária das igrejas, de modo a oferecer aos fiéis a possibilidade de se deterem, a qualquer momento, em adoração, e a possibilidade de se confessarem. Neste mesmo sentido, o Santuário de Vagos terá durante toda a Quaresma, de manhã e de tarde, o Santíssimo exposto, para a adoração dos fiéis.
  5. A Renúncia Quaresmal, este ano, será destinada para os cristãos em Gaza e para o trabalho com os sem-abrigo da Caritas Diocesana e das IPSS que se dedicam a este trabalho em favor dos mais desfavorecidos.
    Nesta Quaresma, procuremos escutar Deus, que continuamente nos acolhe e, acalentados pelo seu sonho, sejamos construtores de um mundo mais justo e fraterno, à luz do Evangelho.

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.

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