OPINIÃO

Histórias do café S. Miguel que encerrou mais de meio século depois

Cantinho de João Ferreira

Com 90 anos, José Carlos da Silva Dionísio fecha o café S. Miguel! Foi para a França com contrato de um ano, aos nove meses pagou-se dos restantes e veio abrir o café S. Miguel na rua Comendador Rodrigues da Silva na vila de Soza. Estava eu para contrair matrimónio quando já havia o café do Sr. José Moreira conhecido por José Alfredo. De lá para cá esse café passou por várias gerências e nomes sendo dos primeiros, Café Sozense, ao contrário do café São Miguel que agora fecha as portas, mais de meio século depois de abrir. Na conversa com o único gerente José Carlos, o mesmo admite não querer, nem por via de terceiros manter o negócio… por outro lado diz também que o café era rentável só que a idade o impede de continuar. Teve inclusive a ajuda da esposa e duas filhas durante estes últimos anos, mas o tempo passa e tornou o fecho inevitável.
De início, por motivo do povo ser pouco, o Sr. José Carlos trabalhava no campo e só abria o café em certos momentos, um bocado na hora do meio-dia, e o seguinte pelas horas da noite. Quero lembrar várias coisas importantes relacionadas com este espaço de recreio: uma delas foi a vitória do campeonato do Sporting Clube de Portugal, ao fim anos de quase vinte anos de “fome”, um pasteleiro morador em Soza, adepto do dito clube, ofertou ao café um bolo que viria a ser partilhado pelos adeptos “Sportinguistas” que celebravam aquela vitória; outra coisa, já falada por certas vezes em outros números do Eco de Vagos, que datam à segunda edição, da qual eu João Ferreira era proprietário e diretor: é a existência de duas Pereiras do tempo de Dona Maria I, a “Piedosa”, hoje sobra uma, quase a morrer e já sem dar fruto, só se mantém de pé (a foto desta árvore bicentenária fará adorno a este artigo a par com uma minha e do Sr. José Carlos, que mesmo juntando a idade ficamos aquém da dita árvore de fruto); por último, tendo eu sido dono de uma educada cadela chamada Fany, entrava no café com ela tantas vezes, que todos a certa altura já todos os clientes a conheciam.


O mais curioso de tudo, é termos andado à procura da casa do Sr. José Carlos para o entrevistar, na viatura da minha primeira nora, Maria do Céu Matos. O meu neto, na primeira casa onde bateu à sorte achou, muito dado ao facto de eu saber mais ou menos onde era. Saímos da porta da casa do ex-gerente e fizemos-lhe a entrevista no dito café, o mesmo diz que ainda abre de vez em quando, para os antigos clientes jogarem às cartas. É com amizade que despeço de mais um número, fazendo votos de boas leituras.
João dos Santos Ferreira

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